Fora do radar das discussões sobre publicidade de bets e regulamentação, os chamados “mercados de predição” se tornaram um novo desafio para as autoridades brasileiras. Em abril de 2026, o governo bloqueou 27 plataformas que faziam previsões sobre temas variados, incluindo as americanas Kalshi e Polymarket, para evitar a consolidação de um modelo de apostas sem controle e que não segue a legislação do país.
O mercado preditivo funciona como uma espécie de “bolsa de apostas” sobre eventos futuros. Nele, pessoas compram e vendem contratos baseados em perguntas simples do tipo “Vai acontecer ou não?”, relacionadas a guerras, mudanças climáticas, eleições ou até mesmo reality shows. Se o evento ocorrer — como a vitória de um político ou o vencedor de um campeonato — quem apostou ganha dinheiro. Caso contrário, perde.
Como funcionam os mercados de predição?
Diferente das apostas tradicionais, onde a empresa define as regras e paga os prêmios, nos mercados preditivos os próprios usuários negociam entre si. Esses contratos são tratados como derivativos — um tipo de investimento que depende do valor futuro de algo. O lucro da plataforma vem de uma comissão sobre cada negociação, não do resultado da aposta. Quanto maior o volume negociado, maior o ganho da operação.
Por exemplo, na Copa do Mundo de 2026, a aposta no campeão é liquidada logo após a final. O valor de um palpite varia conforme a oferta e a demanda: quanto mais pessoas apostam em um resultado, mais o contrato se valoriza. No início de julho, apenas o Kalshi já havia movimentado cerca de 850 milhões de dólares com apostas no campeão da Copa.
Diferenças cruciais entre bets e predições
As diferenças no funcionamento geram discussões regulatórias. Entusiastas dos mercados de predição frequentemente alegam que suas características são mais próximas do mercado financeiro do que de uma bet. A principal defesa é que a aposta ocorre contra outros usuários, e não contra a casa, como na outra modalidade.
Nas casas de apostas tradicionais, cada uma oferece um retorno de acordo com as probabilidades avaliadas de que um evento ocorra — as chamadas “odds”. Algoritmos calculam quanto se pode pagar a cada usuário vencedor de forma que a casa ainda obtenha lucro, normalmente de 5%. Já nos mercados de predição, o resultado final é indiferente para as receitas da operação; o lucro vem do volume negociado.
“É muito difícil de ganhar dinheiro apostando em esportes. É possível lucrar com algumas sequências de apostas, mas para a pessoa comum, apostar muitas vezes resultará em prejuízo.” — Charles Martineau, professor da Universidade de Toronto
Estudos apontam que, assim como nas bets, a maioria dos usuários tende a ter perdas nos mercados de predição. Uma pesquisa recente sobre o Polymarket mostrou que os ganhos são altamente concentrados: 1% dos usuários detém 76,5% dos lucros. Martineau acrescenta: “Em plataformas como Kalshi e Polymarket, onde as apostas esportivas têm alto volume de negociações, constatamos que os preços são tão eficientes que é praticamente impossível lucrar.”
Por que o governo brasileiro bloqueou esses sites?
Na visão da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), a oferta dessas plataformas de apostas em eventos esportivos no país demandaria licenças específicas, assim como ocorre com as casas que operam de forma regular desde 2025. Na ausência de uma regulamentação, o acesso a esses sites deve ser barrado no território nacional.
“Estava havendo ofertas inclusive de mercados ilegais, como eleições. O governo agiu rápido em excelente momento, antes que o tema escalasse”, avalia Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), ao comentar a decisão de bloquear os sites.
Para Leonardo Henrique Roscoe Bessa, sócio do Betlaw e consultor do Conselho Federal da OAB, o cenário atual foi uma “resposta rápida”, especialmente visando limitar as apostas em eleições, que são proibidas no caso das bets. Ele projeta que, passado o período eleitoral e com a atual popularidade, a regulamentação desses mercados deve voltar à tona.
Como os brasileiros ainda acessam esses sites?
Apesar da proibição, usuários brasileiros encontram lacunas para acessar esses conteúdos. O uso de VPNs para driblar os bloqueios é comum. Além disso, a forma de pagamento nesses sites é outra dificuldade para as autoridades: enquanto nas casas de apostas ilegais o governo intensifica verificações sobre transações com Pix, os mercados de predição operam sobretudo usando criptomoedas.
A DW encontrou quatro plataformas operando nesse sistema de forma irregular no país. Além disso, ao longo das últimas semanas, outras chegaram a oferecer anúncios no Instagram. A reportagem encontrou ainda publicidade de casas de apostas clandestinas convencionais na plataforma. Questionada, a Meta apontou que “anunciantes que desejam promover jogos de azar ou jogos online precisam solicitar permissão por escrito e fornecer provas de que as suas atividades estão licenciadas por um regulador ou estabelecidas como legítimas nos territórios nos quais desejam veicular esses conteúdos”.
Popularidade na Copa e riscos de informação privilegiada
Os mercados de predição ganharam enorme tração nas eleições americanas em 2024, após uma disputa jurídica permitir ao Kalshi ofertar palpites nos vencedores daquele pleito. Desde então, acumulam restrições, polêmicas e bilhões de dólares movimentados. Na Copa do Mundo de 2026, as plataformas oferecem apostas convencionais — como palpites no artilheiro e no vencedor do torneio —, mas também mercados mais personalizados, como apostar se Neymar entraria ou não em campo, ou se Cristiano Ronaldo choraria em público durante a competição.
Altos volumes apostados associados às ações dos Estados Unidos no Irã e na Venezuela reforçaram os temores de que agentes com informações privilegiadas lucraram com os eventos nessas plataformas. Uma aposta sobre o uso de armas nucleares em 2026 saiu do ar após polêmica. Bessa aponta que o uso de informações privilegiadas tende a ser uma dificuldade regulatória a mais, algo mais controlado no caso das bets. A legislação atual do setor proíbe que potenciais envolvidos em partidas — como árbitros, jogadores e comissão técnica — apostem. Nos mercados de predição, a atuação de agentes ligados aos eventos é menos controlada. “Quem tem informações, sai na frente”, resume.
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Perguntas Frequentes
Mercados de predição são legais no Brasil?
Não. Em abril de 2026, o governo brasileiro bloqueou 27 plataformas desse tipo, incluindo Kalshi e Polymarket, por não terem licença para operar no país. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) entende que a oferta desses serviços demanda autorização específica, assim como ocorre com as casas de apostas esportivas regulares. Acessar esses sites pode configurar infração, e o uso de VPN para driblar o bloqueio não torna a atividade legal.
Qual a diferença entre mercado de predição e bet?
Nos mercados de predição, os usuários negociam contratos entre si, e o lucro da plataforma vem de comissões sobre as transações — o resultado do evento é indiferente para a receita da operação. Já nas bets tradicionais, a casa define as odds e paga os prêmios, lucrando com a margem embutida nas probabilidades. Estudos mostram que, em ambos os casos, a maioria dos usuários perde dinheiro a longo prazo.
É possível lucrar com mercados de predição?
É extremamente difícil. Pesquisas indicam que os ganhos são altamente concentrados: 1% dos usuários detém 76,5% dos lucros. Em plataformas com alto volume, como Kalshi e Polymarket, os preços são tão eficientes que se torna praticamente impossível para o apostador comum obter lucro consistente. Além disso, há riscos de dependência em jogos de azar e de uso de informações privilegiadas, que podem distorcer ainda mais as chances.
O que esperar daqui para frente
A tendência é que o governo brasileiro continue monitorando e bloqueando novas plataformas que surjam para driblar as restrições. Especialistas como Leonardo Bessa projetam que, com o fim do período eleitoral e o crescimento da popularidade desses mercados, a regulamentação específica deve voltar à pauta. O desafio será equilibrar a inovação financeira com a proteção do consumidor e o combate ao uso de informações privilegiadas. Enquanto isso, usuários brasileiros devem ficar atentos: acessar esses sites pode trazer riscos legais e financeiros, além de expor dados pessoais em plataformas não reguladas.
Tags: mercados de predição, bloqueio de sites, Kalshi, Polymarket, regulamentação de apostas
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Reproducao / G1
