O rápido desenvolvimento da inteligência artificial oferece enormes benefícios potenciais para países e pessoas em todo o mundo, mas também apresenta grandes riscos. Essa é a conclusão do primeiro relatório elaborado por um painel científico independente da ONU sobre a tecnologia, que será apresentado aos governos no primeiro Diálogo Global da ONU sobre a governança da IA, em Genebra, entre 6 e 7 de julho de 2026.

Quarenta cientistas e especialistas renomados, selecionados em todas as regiões do mundo, assinam o documento, que oferece a primeira avaliação científica global e independente da IA. Um relatório mais completo e abrangente está previsto para o próximo ano.

O que o relatório da ONU diz sobre os riscos da IA?

O documento é claro: as capacidades da IA estão superando o entendimento científico e a capacidade de adaptação dos governos. Atualmente, existem poucos métodos disponíveis para controlar sistemas de IA altamente autônomos. O copresidente do painel, Yoshua Bengio, um dos nomes mais respeitados da área, destacou evidências crescentes de comportamentos enganosos da IA.

A ciência não pode garantir que a IA não causará danos catastróficos, seja por conta própria, seja devido a usuários mal-intencionados, à medida que suas capacidades aumentam.

Entre os riscos apontados estão possíveis impactos negativos sobre os direitos humanos, os sistemas sociais e o meio ambiente. O relatório cita a circulação cada vez mais frequente de material de abuso sexual infantil gerado por IA e de violência sexual facilitada por deepfakes.

Benefícios vs. riscos: o equilíbrio delicado

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O relatório não ignora o potencial transformador da IA. “Os benefícios potenciais da IA são enormes”, afirma o texto. No entanto, a implantação rápida e descontrolada da tecnologia em grande escala apresenta riscos consideráveis.

Esses riscos incluem danos à saúde mental dos usuários, uso potencial como ferramenta destrutiva, impactos nos sistemas sociais, econômicos e ambientais, e desafios associados ao controle da tecnologia. Para o consumidor brasileiro, isso significa que ferramentas de IA cada vez mais presentes no dia a dia — de assistentes virtuais a sistemas de recomendação — podem influenciar decisões sem que haja garantias reais de segurança e transparência.

Adoção global da IA: um abismo entre países

A adoção da IA acelerou de forma ampla, mas desigual, entre países e setores. Globalmente, mais de um bilhão de pessoas agora usam IA conversacional semanalmente. No entanto, a adoção nos países em desenvolvimento está atrasada.

O desenvolvimento da IA está ainda mais concentrado: os EUA respondem por 75% do poder de computação entre os 500 maiores supercomputadores de IA do mundo, enquanto a China detém 15%. O Brasil e outros países emergentes ficam com uma fatia mínima desse bolo, o que levanta questões sobre soberania tecnológica e dependência externa.

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O problema dos idiomas e da desinformação

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Embora mais de 7.000 idiomas sejam falados em todo o mundo, os modelos atuais de IA são treinados para apenas uma pequena fração deles. A tradução automática de alguns idiomas está repleta de erros que podem afetar diagnósticos de saúde e decisões de tratamento. Para o Brasil, um país multilíngue com variações regionais e comunidades indígenas, isso representa um risco real de exclusão e má interpretação de dados.

A IA também facilita a produção e o direcionamento de conteúdo persuasivo em grande escala, contribuindo para uma “erosão gradual da integridade da informação que pode enfraquecer a confiança pública, a coesão social e a deliberação democrática”. Em um ano eleitoral no Brasil, esse ponto merece atenção redobrada.

Falta de conhecimento técnico para governar a IA

A maioria dos países, incluindo as economias avançadas, carece do conhecimento técnico necessário para avaliar os novos modelos de IA mais avançados ou participar de forma significativa de sua governança. Isso significa que as decisões sobre o futuro da tecnologia ficam concentradas em poucas empresas e governos, enquanto a maior parte da população mundial — incluindo o Brasil — fica à margem do processo.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que o relatório da ONU recomenda para controlar a IA?

O relatório preliminar não apresenta recomendações detalhadas, mas sinaliza a necessidade urgente de que formuladores de políticas tenham acesso a evidências científicas para governar a IA. O documento completo, previsto para 2027, deve trazer diretrizes mais concretas. Enquanto isso, o painel independente continuará monitorando os avanços e riscos da tecnologia.

Como o Brasil pode se preparar para os riscos apontados?

O Brasil precisa investir em capacitação técnica e regulatória para avaliar modelos de IA, além de participar ativamente dos fóruns internacionais de governança da tecnologia. A criação de uma autoridade nacional de IA, com poderes para fiscalizar e auditar sistemas, é uma medida que especialistas consideram urgente. Além disso, é fundamental que o país incentive o desenvolvimento de modelos de IA treinados em português e em línguas indígenas, para evitar exclusão digital e erros de tradução.

Quais são os principais riscos imediatos da IA para o cidadão comum?

Os riscos mais imediatos incluem a exposição a deepfakes e desinformação, que podem influenciar eleições e decisões pessoais; a utilização de dados pessoais sem consentimento para treinar modelos de IA; e a automatização de empregos sem a devida proteção social. O relatório da ONU também alerta para danos à saúde mental causados pelo uso excessivo de IA conversacional e pela personalização algorítmica de conteúdo.

O que esperar daqui para frente

O relatório da ONU é um alerta global, mas também um convite à ação. Nos próximos meses, o painel científico independente continuará coletando dados e evidências para o relatório completo de 2027. Enquanto isso, governos, empresas e a sociedade civil precisam se mobilizar para criar mecanismos de controle e transparência.

Para o Brasil, o momento é de atenção redobrada. Com eleições marcadas para outubro de 2026, a desinformação gerada por IA pode ser uma arma poderosa. Acompanhe as próximas edições do Diálogo Global da ONU e as discussões no Congresso Nacional sobre a regulação da IA. O futuro da tecnologia — e da democracia — depende das escolhas que fizermos agora.

Tags: ONU, inteligência artificial, regulação, riscos da IA, Yoshua Bengio


Fonte Original: g1.globo.com

Foto: Reproducao / G1