O telefone de Marios apita e se ilumina. Ele acaba de receber uma mensagem de WhatsApp pedindo uma entrevista. A vontade de responder imediatamente é avassaladora, mas ele está no meio de uma sessão de terapia sobre seu vício em celular. Ele se controla. Assim que a reunião termina, volta ao telefone. “É como carregar seu próprio traficante. Minha droga está sempre no meu bolso, piscando, apitando e me lembrando de tomar uma dose”, desabafa o personal trainer londrino, que chegava a passar mais de 14 horas por dia olhando para a tela.
Essa história, relatada em uma reportagem da BBC, não é isolada. Uma pesquisa recente da Deloitte com mil adultos mostrou que 70% dos entrevistados acreditam que passam tempo demais no celular. Enquanto o vício em telefone ainda não é um diagnóstico médico oficial, especialistas em dependência alertam que o número de pessoas completamente dependentes dos dispositivos cresce a cada ano. No Reino Unido, um em cada três clientes tratados por dependência de drogas em 2025 também apresentava dependência secundária de celular — em 2019, era apenas um em cada dez.
Mas quando o uso excessivo deixa de ser um hábito e se torna um problema que exige ajuda profissional? O que está por trás dessa compulsão e como é possível retomar o controle?
O mecanismo do vício: dopamina e o ciclo de recompensa
Para entender por que o celular pode se tornar tão viciante, é preciso olhar para o funcionamento do cérebro. Cada notificação, curtida ou mensagem nova ativa o sistema de recompensa cerebral, liberando dopamina — o neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. Esse mesmo mecanismo está por trás de vícios em substâncias como álcool e cocaína.
“Todos nós temos telefones, todos temos circuitos cerebrais semelhantes, e muitos de nós podemos nos tornar viciados”, explica Kelly Watson, terapeuta-chefe do centro de reabilitação Steps Together, no Reino Unido. O problema é que, para algumas pessoas, a necessidade desse estímulo se torna excessiva. O cérebro passa a buscar recompensas cada vez mais frequentes, criando um ciclo difícil de quebrar.
James, um paciente de 48 anos em tratamento no mesmo centro, descreve a sensação: “Eu ficava com receio. Parecia que um pedaço da minha alma tinha sido sugado, mas eu não conseguia parar.” Ele passava o dia rolando feeds de redes sociais e checando sites de notícias, mesmo sem tirar prazer da atividade. A compulsão já havia substituído o prazer.
Esse ciclo de recompensa é o mesmo que mantém usuários presos a plataformas como Instagram, TikTok e YouTube, que são projetadas para maximizar o tempo de tela. Algoritmos sugerem conteúdos personalizados, notificações puxam a atenção e o design de interface incentiva o scrolling infinito. O resultado é que o aparelho se torna uma extensão do corpo — e difícil de largar.
Sinais de alerta: quando o uso vira dependência
Segundo a psicoterapeuta Hilda Burke, autora do livro Phone Addiction Workbook, o primeiro passo para identificar o problema é a auto-observação. “Faça a si mesmo perguntas como: ‘O que estava acontecendo naquele dia? Eu estava esperando alguém responder a uma mensagem?'”, sugere. Muitas vezes, o desconforto inicial vem da espera por uma resposta, e o celular vira uma distração.
Entre os sinais mais comuns de dependência digital estão:
- Perda de noção do tempo: passar horas rolando a tela sem perceber.
- Ansiedade ao ficar sem o aparelho: sentir medo ou irritação quando o celular não está por perto.
- Uso em situações inadequadas: checar o telefone durante reuniões, refeições ou conversas presenciais.
- Tentativas frustradas de reduzir o uso: estabelecer limites e não conseguir cumpri-los.
- Impacto na vida pessoal e profissional: prejuízos no trabalho, nos relacionamentos ou na saúde física.
- Negligência de necessidades básicas: deixar de comer, dormir ou se hidratar por causa do celular.
Jenny, membro do Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA), viveu o lado extremo. No auge do vício, ela não dormia por dias, mal comia e sentia que “iria morrer se não assistisse a algo”. Ela precisou pedir a amigos e familiares que trancassem seus dispositivos para conseguir parar. “Era tão ruim que pensei que iria morrer se não assistisse a algo”, lembra.
Se você se identifica com alguns desses sintomas, talvez seja hora de buscar ajuda.
Tratamento e recuperação: é possível se libertar
A boa notícia é que o vício em celular tem tratamento, e as abordagens variam de terapia individual a grupos de apoio. Centros de reabilitação como o Steps Together, no Reino Unido, já incluem a dependência digital como parte de seus programas. Os pacientes passam pelo menos 28 dias em regime residencial, recebendo terapia em grupo e individual para entender as causas emocionais do vício.
“Eles dizem: ‘Mas eu preciso para o trabalho, preciso para manter contato com a família.’ Posso ouvir o medo em suas vozes. É o porto seguro deles”, relata Kelly Watson. O trabalho terapêutico envolve reduzir gradualmente o tempo de tela e explorar os pensamentos e sentimentos que surgem quando o aparelho não está por perto. “Esse é frequentemente o problema — a vida pode ser difícil demais, e ao rolar a tela do telefone eles podem se dissociar do mundo real”, acrescenta.
Para quem não pode ou não quer se internar, existem outras opções. O ITAA, inspirado nos Alcoólicos Anônimos, oferece um programa de 12 passos online e gratuito. Membros como Tom, que perdeu o negócio e quase a vida por causa do vício, encontraram ali um caminho de recuperação. “Eu me tornei suicida”, confessa. “Agora estou começando a sentir alegria real na vida novamente. Jogo muito pickleball, saio ao ar livre e vou à academia.”
Já Marios, o personal trainer de Londres, está fazendo terapia particular de 12 sessões. Ele também usa aplicativos de idiomas no celular — “nem tudo é ruim”, pondera. A cada dia, ele estabelece a intenção de não usar o aparelho tanto e sente que está lentamente retomando o prazer nas atividades offline.
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Dicas práticas para reduzir o tempo de tela
Se você quer diminuir o uso do celular sem necessariamente buscar ajuda profissional, algumas estratégias simples podem fazer diferença:
- Ative o modo “Não Perturbe” em períodos específicos do dia, como durante o trabalho ou antes de dormir.
- Use ferramentas de monitoramento — tanto Android quanto iOS oferecem recursos para limitar o tempo em apps.
- Crie zonas livres de celular no quarto, na mesa de jantar ou no banheiro.
- Substitua o hábito: em vez de pegar o telefone, chame um amigo, vá correr ou leia um livro, como sugere Hilda Burke.
- Não sinta culpa — “em vez disso, pense em como poderia lidar com isso da próxima vez”, recomenda a psicoterapeuta.
Para casos mais graves, a recomendação é buscar um psicólogo ou psiquiatra especializado em dependência digital. O tratamento pode incluir terapia cognitivo-comportamental (TCC), grupos de apoio e, em alguns casos, medicação para condições associadas, como ansiedade ou depressão.
FAQ: Perguntas frequentes sobre vício em celular
1. Vício em celular é um diagnóstico médico oficial?
Não, até o momento a dependência digital não consta como transtorno no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) ou na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). No entanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o “transtorno de jogos eletrônicos” como condição, e muitos especialistas defendem que o uso excessivo de celular pode ser igualmente prejudicial. A falta de um diagnóstico oficial não diminui a gravidade do problema para quem sofre com ele.
2. Quanto tempo de tela é considerado excessivo?
Não há um número mágico, mas estudos indicam que mais de 4 a 5 horas diárias de uso recreativo (fora trabalho/estudo) já estão associados a maior risco de ansiedade, depressão e isolamento social. O importante é observar o impacto na sua vida: se o celular atrapalha o sono, os relacionamentos, o trabalho ou a saúde física, é um sinal de alerta. Uma boa referência é a pesquisa da Deloitte, que mostrou que 70% dos adultos acham que passam tempo demais no aparelho.
3. É possível se recuperar sem ajuda profissional?
Sim, muitas pessoas conseguem reduzir o uso com estratégias de autocontrole, como definir horários sem celular, usar aplicativos de bloqueio e buscar atividades offline. No entanto, para casos graves — como os relatados por Jenny e Tom, que chegaram a ter pensamentos suicidas — a ajuda profissional é fundamental. Centros de reabilitação, terapia individual e grupos como o ITAA podem oferecer o suporte necessário para uma recuperação duradoura.
O que esperar daqui para frente
O vício em celular é um fenômeno relativamente novo, mas está crescendo rapidamente. Com o avanço da inteligência artificial e dos algoritmos cada vez mais persuasivos, a tendência é que o problema se agrave antes de melhorar. Por outro lado, a conscientização também aumenta. Mais pessoas estão buscando ajuda, e a oferta de tratamento — de terapia online a grupos de apoio — se expande.
No Brasil, o assunto ainda é pouco discutido, mas iniciativas como o movimento “Digital Detox” e o crescimento de comunidades de apoio indicam que a demanda existe. Especialistas recomendam que escolas, empresas e governos invistam em educação digital desde cedo, ensinando crianças e adolescentes a usar a tecnologia com equilíbrio.
Para quem está lutando contra a dependência, a mensagem de Marios é um alento: “Todos os dias, estabeleço a intenção de não usá-lo tanto e isso está fazendo diferença. E, a cada dia, estou lentamente começando a aproveitar as coisas novamente. É possível, tenho certeza.”
Tags: vício em celular, dependência digital, saúde mental, tempo de tela, tratamento
Fonte Original: g1.globo.com
Foto: Zulfugar Karimov no Unsplash
